Nestes sessenta anos pós
Concílio Vaticano II, a devoção mariana tem sido tema constante nas reflexões
do Magistério ordinário da Igreja Católica Romana. Temos pelos menos quatro
intervenções papais sobre o assunto: a “Marialis Cultus” de Paulo VI (1974); a
“Redemptoris Mater” de João Paulo II (1987); a “Rosarium Virginis Mariae” do
mesmo João Paulo II (2002) e a “Mater Populus Fidelis” de Leão XIV (2026).
Em todas elas, a preocupação
principal é a animar a devoção mariana na perspectiva eclesial proposta pelo
Concílio Vaticano II, de modo especial na “Lumen Gentium” onde apresenta Maria
como Mãe e Modelo de Igreja.
Nestes tempos de muitos
“magistérios paralelos” na Igreja, bom e necessário se faz voltar ao Magistério
autêntico para manter nossas devoções marianas protegidas de inovacionismos
personalísticos, deformantes e mercadológicos onde a monetização é mais importante
que a evangelização.
Necessários se faz, por exemplo,
voltar à “Marialis Cultus” de Paulo VI, uma verdadeira preciosidade mariológica
onde há um apontamento que fala alta na atualidade social, eclesial e nas
devoções marianas.
Na segunda parte do documento,
ao propor orientações para a renovação do culto mariano, Paulo VI apresenta
“algumas orientações, de ordem bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica,
para o culto à Virgem Maria”.
No n. 34, ao falar das
orientações antropológicas, ele afirma que, “no culto à Santíssima Virgem devem
ser tidas em atenta consideração também as aquisições seguras e comprovadas das
ciências humanas; isso concorrerá, efetivamente, para que seja eliminada uma
das causas de perturbação que se nota nesse mesmo campo do culto à Mãe do
Senhor; quer dizer, aquele desconcerto entre certos dados deste culto e as
hodiernas concepções antropológicas e a realidade psicossociológica,
profundamente mudada, em que os homens do nosso tempo vivem e operam”.
Para o Papa, o modo como nos
referimos a Maria precisa ser adequado ao modo de sentir e pensar dos tempos
presentes e não ficar preso a padrões do passado que já não são compreendidos e
muito menos aceitos.
De modo surpreendente para os
padrões socioculturais e eclesiais da época (1974), Paulo VI faz menção
explicita ao modo como se relaciona Maria à condição social das mulheres:
“Observa-se, na realidade, que é difícil enquadrar a imagem da Virgem Maria conforme
resulta de certa literatura devocional, nas condições de vida da sociedade
contemporânea, e em particular nas da mulher. E isso, quer a consideremos no
ambiente doméstico, onde tanto as leis como a evolução dos costumes tendem
justamente para lhe reconhecer a igualdade e a co-responsabilidade com o homem,
na direção da vida familiar; quer a consideremos no campo político, onde ela
conquistou, em muitos Países, um poder de intervenção na coisa pública, a par
do homem; quer a consideremos, ainda, no campo social, onde ela desenvolve a
sua atividade, nos mais variados setores operativos, deixando cada dia mais o
restrito ambiente do lar; quer a consideremos, enfim, no campo cultural, onde
lhe são proporcionadas possibilidades novas de pesquisa científica e de
afirmação intelectual.”
As devoções marianas, conforme
vemos, não podem ser utilizadas como instrumento para a inferiorização da
mulher na Igreja e na sociedade. Fazer isso é afrontar a própria pessoa de
Maria e desconsiderar sua missão específica na ação salvadora realizada por
Deus em Jesus Cristo e pelo Espírito.
Nesses tempos em que a devoção
mariana é utilizada como ferramenta misógina por grupos e indivíduos católicos
com interesses políticos e econômicos, voltar a “Marialis Cultus” e ao legítimo
magistério eclesial é necessário e nos livra de muitos males presentes e
previne contra males futuros, tanto aqui na terra como no céu.
*Deixo o link para a “Marialis
Cultus” para que cada um/a possa conferir o texto na sua originalidade e
confrontá-lo com certas práticas que hoje vemos no meio católico.



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