O Senhor Deus falou, quem não
profetizará? (Amós 3,8)
O papa Leão XIV, em sua
encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos
humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos
quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’”
(216).
Nós, bispos católicos de
diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do
Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser
necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar
mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas
situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que
exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja
(DSI).
“O anúncio do Evangelho não pode
esquecer a vida concreta dos povos” (Rerum Novarum, 15). O católico e a
católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto
à luz de seus ensinamentos. Devem deixar “que o Evangelho […] avalie as
estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II,
podem tornar-se verdadeiras e próprias ‘estruturas de pecado’, para que nenhuma
pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de
desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)
Duas candidaturas estão
colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o
próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a
diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça
frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a
soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha
eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma
mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX
deixaram cruéis e amargas lembranças.
Queremos auxiliar os católicos
em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento
social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.
As mudanças tecnológicas do
mundo atual “não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a
partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e
da efetiva possibilidade de participar na vida social” (Magnifica Humanitas,
37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1 e propunha pagar o
salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá
voltar a este tema.
“A promoção do bem comum nunca
pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir […]. Qualquer
tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e,
por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete
submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para
taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas
eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.
A exortação apostólica Dilexi Te
(Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que “seria
melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a
liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza”
(114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos
programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da
miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar
alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica
opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa
Igreja.
A DSI propõe o desarmamento e
diz que “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a
estabilidade e a paz” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508). Um dos
candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu
Governo.
O cuidado com a Ecologia
Integral é hoje elemento central da DSI. A Laudato si’ critica “as atitudes que
barram os caminhos de solução” que “vão da negação do problema à indiferença”
(14). Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas
ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que
caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso.
Lembremo-nos da “Lei da Devastação” (nº 15.190/2025)aprovada no ano passado.
“O discípulo de Cristo rejeita
todo recurso [à tortura], de modo algum justificável” (Compêndio da Doutrina
Social da Igreja, 404). Um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e
sua família fez homenagens a um dos maiores torturadores da ditadura
brasileira, o general Brilhante Ustra, que matou muitas pessoas.
“A Igreja encara com simpatia o
sistema da democracia […]; ela não pode, portanto, favorecer a formação de
grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado favor dos seus
interesses particulares ou dos objetivos ideológicos” (Centesimus Annus, 46).
Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar
contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à
ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso
Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão
do país à sua ideologia.
Por outro lado, temos outra
candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou
responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da
ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo
não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha
contradição com os ensinamentos de nossa Igreja.
Diante desses e inúmeros outros
elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a
história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças
totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança
vergonhosa para as gerações seguintes.
Conclamamos a todos os católicos
para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em
defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos
de nossa Igreja.
Que Nossa Senhora Aparecida,
Padroeira do Brasil, ilumine a mente de cada um e cada uma de nós.
Assinam:
Dom Adolfo Zon Pereira, SX,
Bispo da Diocese do Alto Solimões AM
Dom Adriano Ciocca Vasino, Bispo
Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia MT
Dom Benedito Araújo, Diocese de
Campo Maior PI
Dom Edivalter Andrade, Bispo da
Diocese de Parnaíba PI
Dom Edmilson Tadeu Canavarros
dos Santos, Bispo da Prelazia de Itacoatiara AM
Dom Edson Damian, Bispo Emérito
de São Gabriel da Cachoeira AM
Dom Egídio Bisol, Bispo Emérito
da Diocese de Afogados da Ingazeira PE
Dom Erwin Kräutler, Bispo
Emérito da Prelazia do Xingu PA
Dom Evaldo Carvalho dos Santos,
Bispo da Diocese de Viana MA
Dom Eugênio Rixen, Bispo Emérito
de Goiás
Dom Evaristo Pascoal Spengler,
Bispo da Diocese de Roraima
Dom Flavio Giovenale, Bispo da
Diocese de Cruzeiro do Sul AC
Dom Francisco Cota de Oliveira,
Bispo da Diocese de Sete Lagoas MG
Dom Frei Aloísio Alberto Dilli
OFM, Bispo Emérito de Santa Cruz do Sul RS
Dom Frei Pedro Cesário Palma
OFMCap, Bispo de Jardim MS
Dom Frei Samuel Ferreira de
Lima, OFM, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM
Dom Gabriele Marchesi, Bispo da
Diocese de Floresta PE
Dom Geraldo dos Reis Maia, Bispo
da Diocese de Araçuaí MG
Dom Giovane Pereira de Melo,
Bispo de Araguaína TO
Dom Giuseppe Luigi Spiga, Bispo
da Diocese de Grajaú MA
Dom Guilherme Werlang, Bispo
Emérito de Lages SC
Dom Itacir Brassiani, Bispo da
Diocese de Santa Cruz do Sul RS
Dom João Batista de Oliveira,
Bispo da Diocese de Corumbá MS
Dom João Muniz Alves, OFM, Bispo
da Diocese de Xingu-Altamira PA
Dom Joaquim Giovani Mol
Guimarães, Bispo da Diocese de Santos, São Paulo
Dom Joaquim Hudson de Souza
Ribeiro, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM
Dom Joel Maria dos Santos, Bispo
Auxiliar da Arquidiocese de Belo
Horizonte MG
Dom José Albuquerque de Araújo,
Diocese de Parintins AM
Dom José Altevir da Silva, Bispo
da Prelazia de Tefé e Presidente Nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores e
Pescadoras
Dom José Aristeu Vieira, Bispo
da Diocese de Luz MG
Dom José Ionilton Lisboa de
Oliveira, SDV, Bispo Presidente da CPT Comissão Pastoral da Terra
Dom José Luiz Bertanha, Bispo
Emérito de Registro SP
Dom Jose Luiz Ferreira Salles,
Bispo da Diocese de Pesqueira PE
Dom Jose Mario Stroeher, Bispo
Emérito da Diocese de Rio Grande/RS
Dom José Reginaldo Andrietta,
Bispo da Diocese de Jales SP
Dom Lauro Sérgio Versiani
Barbosa, Bispo da Diocese de Colatina ES
Dom Lucio Nicoletto, Bispo da
Prelazia de São Felix do Araguaia MT
Dom Luiz Antonio Lopes Ricci,
Bispo de Diocese de Itapetininga SP
Dom Luiz Fernando Lisboa,
Arcebispo da Diocese de Cachoeiro do Itapemirim ES
Dom Luiz Gonzaga Fechio, Bispo
da Diocese de Amparo SP
Dom Manoel João Francisco, Bispo
Emérito da Diocese de Cornélio Procópio PR
Dom Mauro Montagnoli. Bispo
Emérito de Ilhéus BA
Dom Moacir Aparecido de Freitas,
Bispo de Votuporanga SP
Dom Nereudo Freire Henrique,
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife PE
Dom Norberto Foerster, Bispo da
Diocese de Ji-Paraná RO
Dom Otair Nicoletti, Bispo da
Diocese de Coxim MS
Dom Paolo Andreolli, Bispo da
Diocese de Ponta de Pedras PA
Dom Paulo Celso Dias do
Nascimento, Bispo da Diocese de Itaguaí RJ
Dom Paulo Mendes Peixoto,
Arcebispo da Arquidiocese de Uberaba MG
Dom Pedro José Conti, Bispo
Emérito de Macapá AP
Dom Pedro Luiz Stringhini, Bispo
da Diocese de Mogi das Cruzes SP
Dom Raimundo Possidonio Carrera
da Mata, Bispo da Diocese de Bragança do Pará
Dom Roberto Francisco Ferrería
Paz, Bispo da Diocese de Campos (RJ)
Dom Roque Paloschi, Arcebispo da
Arquidiocese de Porto Velho RO
Dom Sebastião Lima Duarte, Bispo
da Diocese de Caxias do Maranhão
Dom Silvio Guterres Dutra, Bispo
da Diocese de Vacaria RS
Dom Vanthuy Neto, Bispo da
Diocese de São Gabriel da Cachoeira AM
Dom Vicente de Paula Ferreira,
Bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora BA
Dom Vilson Dias de Oliveira,
Bispo Emérito da Diocese de Limeira SP
Dom Zanoni Demettino Castro,
Arcebispo da Arquidiocese de Feira de Santana BA
Dom Zenildo Lima da Silva, Bispo
Auxiliar de Manaus AM
Dom Zenildo Luiz Pereira da
Silva, C.Ss.R., Bispo da Diocese de Borba AM.



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